quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O doce amargo do teu gosto

    Se para ti eu fui um gosto amargo para o paladar, para mim tu fostes um pavio, bem curto.
    Se para ti eu fui uma porta fechada, tu foste uma chave que permitiu abrir-me e desvendar meus segredos a mim mesma.
    Se para ti eu fui a prisão, para mim fostes a queda livre, permitiu-me voar sem limites, porém, não impediu o impacto da minha chegada violenta ao chão.
    Se para ti eu fui o silêncio, tu foste todas as palavras da noite vazia, todas as estrelas que hoje não existem.
    Se para ti eu não passei de um nada, para mim tu fostes tudo.
Larissa Hail

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Caminhe - Marcelo Ferrari

Caminhe!
Assim como contam
seus irmãos de pés cascudos.
Assim como sonham
seus irmãos de pés de seda.
Caminhe ereto.
Com a sombra amarrada aos calcanhares.
Com olhos de girassol.
Com o couro desgastando feito sabão
seguindo a regra três:
onde o menos vale mais.
Caminhe, homem.
Lábios calados em punho.
Corpo cajado em prumo.
Passo a passo,
empurrando o mundo para trás.
Caminhe, homem.
Não porque acredita ser necessário
chegar ao final da reta,
mas porque é inevitável
curvar-se ao próprio destino.
Caminhe, homem.
São mais de mil e oitocentas colinas.
Novecentos dragões de lama.
Sete demônios de resistência.
E todos vencidos pela solidariedade de duas pernas
que servem de ombro uma à outra.
Caminhe, homem.
Entregue-se à dança dos bambus
e eles dobrarão o medo pra você.
Ande calmo entre as vacas
e elas ruminarão suas angústias.
Solte seus cabelos brancos
e o vento lhe responderá
como responde às árvores.
Beba suas magoas gole após gole,
que num ato de alívio
ela se juntará à enxurrada,
rumo ao rio,
rumo ao mar.
Caminhe, homem.
E quando cair, levante-se.
E quando levantar-se,
siga até cair de novo.
E quando estiver no chão
não reclame da profundidade da sorte,
nem da largura do azar,
antes do próximo passo.
Caminhe, homem.
Ouça os lírios do campo.
Plante um livro.
Leia uma árvore.
O apito do tem
trem gosto de amora.
Não olhe pela nuca.
O caminho está por todos os lados.
E todos levam a Roma.
Caminhe, homem.
Carros andam mais rápido do que você.
Cavalos andam mais rápidos do que você.
Cachorros andam mais rápido do que você.
Tartarugas com câimbra
andam mais rápido do que você.
Mas você não pode
andar mais rápido do que você.
E nem pode ser mais do que é.
Você é uma criança
jurada de morte pelo tempo.
Saboreie tanto a fome como a refeição.
Mais vale manteiga no pão
do que sebo nas canelas.
Muitas vezes,
o caminho será uma pedra no sapato.
Uma carga impossível de carregar.
Uma montanha intransponível.
Caminhe, homem.
Que em algum momento do caminho
seu coração será tocado
pela mesma força que dá peso à carga,
altura à montanha
e dureza à pedra.
Caminhe para compreender
que sentar só faz sentido
quando se está andando.
E andar, só faz sentido,
quando se está sentado.
Caminhe, homem.
E quando estiver com fome, coma.
E quando estiver com sede, beba.
E quando tiver forças, ande.
E quando não tiver mais, pare.
Não tenha medo de ser fraco.
Nem orgulho de ser forte.
Apenas caminhe.
Com pés de adulto,
ânimo de criança
e sabedoria de ancião.
Caminhe, homem.
Porque o caminho é seu melhor amigo.
Porque o caminho só existe para lhe servir.
Porque caminhar é seu caminho.
Seu destino de homem.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Querida Veneza


     O Doce aroma de flores invade meu quarto, fazendo as cortinas balançarem com o toque suave do vento que sopra num assobio constante, trás consigo cheiros que embalam meu sono, fazendo-me sonhar sem medidas. Acordo em um barco, olhando para o céu coberto por nuvens e o sol parece tímido ao lançar sua luminosidade sobre as pedras das casas, um tom bonito e calmo, um silêncio que envolve a alma e descansa os ouvidos. 
     Pássaros repousam no ar sem receio algum de cair, mergulham no vazio, faltam descansar suas pálpebras e sentir a brisa serena. Embaixo da ponte dos suspiros, feche os olhos e faça um pedido, o lugar é tão mágico que se acreditar com vontade e sentir de coração, quem sabe não se torne real. 
Larissa Veiga

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A história segundo o gatuno

Sempre via aquela pequena garotinha de cabelos negros correndo na chuva, eu tinha uma curiosidade para saber o que ela fazia lá, sozinha. Será que não tinha pai ou mãe? Foi então que naquela noite de tempestade e raios fortes caindo por toda parte do bosque que rodeava a mansão, que ela resolveu me seguir. Não estava confortável com aquela situação, eu queria chegar ao meu destino, meio que atrasado para um compromisso importante, eu sempre deixo as coisas para a última hora. Corri o mais rápido que conseguia, mas ela insistia naquela perseguição, não sei o que ela via de tão curioso em mim, sou apenas um gato preto correndo como todos os outros fazem, enfim, em um minuto de distração, um raio cai exatamente em cima de nós. The End.

The beginning


O clarão quase nos cegou e eu simplesmente me levantei sem nenhum esforço, ao olhar para trás vi que a menina me seguia ainda: _“Que garota burra!” _ não pude evitar de fazer este pequeno comentário em voz alta, e surpreendentemente ela me escutou.


_Burro é o senhor que corre sempre nesse mesmo sentido e sem rumo, parece ser cego ou um gatuno sujo de rua!

O que a garota falava não me assustava mais do que a cena atrás dela, ali estava seu corpo estendido no chão debaixo de um enorme tronco de madeira, deve ter caído com o raio, mas como ela havia morrido? Eu agora era um gato louco, e atrasado que ouvia espíritos. Com minha reação não pude evitar de fazer com que a menina olhasse para trás também, pronto! Acabou o sossego, no mesmo momento ela começou a gritar e gritar, achei que ia conseguir arrebentar suas cordas vocais e estourar meu ouvido. Só se via sangue e suas pernas foram esmagadas, era uma cena horrível, mas o fato era que ela estava morta e aquilo me assustava ainda mais. Naturalmente, reagindo ao som que ela fazia corri rapidamente para o grande buraco, sendo seguido novamente pela alma penada, como eu não conseguia evitar, continuei meu caminho, talvez ela cansasse, nem quis dar papo, ao olhar para trás ela simplesmente havia desaparecido.

3 dias depois …

Não sei o que aconteceu com a menina, só me lembro que ela entrou e caiu naquele buraco grande, e como é tão curiosa obviamente foi atrás do outro gatuno branco que carregava consigo óculos de grau. Vi Sua mãe chorando em seu corpo caído e esmagado, as Lágrimas da senhora eram incessantes e molhava sua roupa toda, ela estava complemente insana diante da cena. Mais uma vez não pude deixar de repetir: _” Garota burra!” e mais uma vez fui ouvido, que droga! Alice era o nome que estava escrito no caixão. Alice, esse era seu nome, pobre criança, há essas horas deve estar se divertindo em Horrorland.

Texto de: Larissa Veiga Hail

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Não simplesmente são

São almas, são risos
São abraços, gracejos
ou meros deslizes
de muitos desejos.

São passos contados
são mãos abraçadas,
são amores guardados
de almas passadas.

Por: Larissa Hail